Bárbaro da cultura
Não sou e jamais serei um erudito; falta-me para isso o devido capital cultural. A erudição requer um contato contínuo, osmótico, presencial, quotidiano, regular, com a cultura; o tê-la sempre presente na sala de jantar, dormir com ela. O erudito recebe a cultura ainda na infância, juntamente com todos os símbolos distintivos de sua estirpe. Tem para com ela intimidade; eventualmente vai ao banheiro com ela; estabelece-se, portanto, um vínculo natural e fluente; uma prosa mansa, como quem discorre sobre os gregos, na firme convicção de um relacionamento arcaico. Há, na erudição, muito pouca surpresa: é o sexo intenso, mas regular; paixão comedida; elevação de avião; a primeira classe. A cultura é igualmente um código, regras de boas maneiras, noções de pertinência; uma etiqueta, por meio do qual se estabelecem os domínios do legítimo e do possível. O erudito domina este código; tem as mãos macias, a fala doce, a benignidade dos gestos entardecidos, em que se reúnem aqueles cuja condição social coloca, em um mesmo lugar e tempo, palavras com tamanha animosidade recíproca: ócio e respeitabilidade. A erudição autêntica é uma condição efetivamente aristocrática; não se oferece, não se compra ou adquire; ela é a síntese individual da totalidade de um meio, de relações de pertinência; é um bom tom que advém do hábito, do convívio; que se inscreve no corpo, de tal modo que é uma espontaneidade, uma gratuidade, que é em sua essência pré-discursiva.
Quem faz da erudição um programa torna-se, portanto, com muita facilidade, um afetado, um diletante, um doente dos nervos; cheio de esquisitices e manias, pois se vê na obrigação de realizar com esforço descomunal e individual, aquilo que é uma potência social. A erudição como meta é uma vontade de aceitação, de ascensão social; um querer ser reconhecido como par; como um igual – um burguês enobrecido, uma nobreza de toga -, mas sendo ainda pródigo em excessos parnasianos, em firulas e devaneios; a tergiversação como uma tática e a elipse como linguagem.
Por muito tempo, contudo, eu mesmo quis ser um erudito, mas minha inclinação neste sentido era fruto de um erro e de um desconhecimento, pois como alternativa aos eruditos, só conseguia conceber os desiludidos da cultura, seus órfãos. Não conseguia imaginar, ainda, a necessidade dos bárbaros da cultura; essa gente de mão grossa, sem receios ou cerimônias; sem meias palavras e, portanto, amigos das palavras, quando elas ainda estavam vivas. Pessoas capazes de grossuras e grosserias, perpetradores de impropriedades, de perguntas absurdas; amantes da aventura e do ar livre, saltimbancos e salteadores. Percebi, só muito recentemente, que o erudito e o bárbaro têm, com relação à cultura, legitimidades de natureza completamente distintas, mas complementares: um zela por sua integridade; o outro lhe propõe licenciosidades; um a quer em toda a grandiosidade de sua beleza; o outro a quer desarvorada, como que acabou de fazer sexo; um demanda sua sobriedade, outro seu riso; um a convida à contenção, o outro lhe deseja a gravidez. O erudito é o testamenteiro da cultura; o bárbaro morreria dela, como em uma overdose de vida. Nesta necessidade recíproca; nestas distintas legitimidades, a cultura afirma toda sua potência, requerendo mais do ser humano que sua existência concreta e determinada pode oferecer. Sou com todo o prazer um bárbaro da cultura, mas sei que não lhe basto. Meu amor da cultura é a liberdade do erro por exuberância da vida; a forma em toda sua impropriedade e inconveniência, como quem anuncia uma necessidade elementar que ainda não se descobriu; o muito rir na intimidade nua, que verte o tempo no prazer. Na cultura, sou uma jura; um braço estendido sobre o precipício; um destemido e um indômito, porque estou em conformidade comigo.
Atravessa-se em sobressalto, o que os ocultistas chamam de paisagens perigosas. Meus passos suscitam monstros que espreitam; eles não estão ainda muito mal-intencionados a meu respeito, e não estou perdido, pois os temo. Eis “os elefantes com cabeça de mulher e os leões voadores” que Soupault e eu ainda há pouco tremíamos de medo de encontrar, eis o “peixe solúvel” que ainda me assusta um pouco. PEIXE SOLÚVEL, não serei eu o peixe solúvel, nasci sob o signo de Peixes e o homem é solúvel em seu pensamento! A fauna e a flora do surrealismo são inconfessáveis. (BRETON André, Manifesto do Surrealismo, 1924)
Dream Caused by the Flight of a Bumblebee around a Pomegranate a Second Before Awakening
(Salvador Dali, 1944)
A complementaridade entre o erudito e o bárbaro da cultura é, contudo, o enunciado de uma tensão, pois, para o primeiro, a história existe como aquilo que antecede ao presente, ao passo que para o segundo a ela resta eternamente por descobrir. Sob o ponto de vista do bárbaro, portanto, o amor da cultura do erudito é igualmente necrofilia. Reside exatamente aqui, contudo, o terrível perigo para a vida do bárbaro e a possibilidade recorrente de uma barbárie negativa e unilateralmente destrutiva: como o pequeno homem moderno só chega à alta cultura quando ela já está morta, tende a desforrar-se dela com fúria de piromaníaco, de tal modo que incendeia continuamente o mundo, na esperança de redimi-lo e purificá-lo de sua pestilência.
Esses são os exatos termos do problema, ou seja, a cultura que se imagina dada e inatingível - e que supostamente se revelaria apenas aos eruditos, em seus procedimentos de dissecação - é continuamente recriada como potência viva. A tradição, contudo, que a sandice fascista incendiou em praça pública - ato que a contemporaneidade incorporou como elemento dinâmico da própria cultura, atualizando-o continuamente -, precisa ser salva para os fins da cultura e civilização, não pelos tradicionalistas, mas pelos justamente pelos revolucionários e para os propósitos da revolução.
O materialista histórico não pode renunciar ao conceito de um presente que não é transição, mas pára no tempo e se imobiliza. Porque esse conceito define exatamente aquele presente em que ele mesmo escreve a história. O historicista apresenta a imagem “eterna” do passado, o materialista histórico faz desse passado uma experiência única. Ele deixa a outros a tarefa de se esgotar no bordel do historicismo, com a meretriz “era uma vez”. Ele fica senhor das suas forças, suficientemente viril para fazer saltar pelos ares o continuum da história.
O historicismo culmina legitimamente na história universal. Em seu método, a historiografia materialista se distancia dela talvez mais radicalmente que de qualquer outra. A história universal não tem qualquer armação teórica. Seu procedimento é aditivo. Ela utiliza a massa dos fatos, para com eles preencher o tempo homogêneo e vazio. Ao contrário, a historiografia marxista tem em sua base um princípio construtivo. Pensar não inclui apenas o movimento das idéias, mas também sua imobilização. Quando o pensamento pára, bruscamente, numa configuração saturada de tensões, ele lhes comunica um choque, através do qual essa configuração se cristaliza enquanto mônada. O materialista histórico só se aproxima de um objeto histórico quando o confronta enquanto mônada. Nessa estrutura, ele reconhece o sinal de uma imobilização messiânica dos acontecimentos, ou, dito de outro modo, de uma oportunidade revolucionária de lutar por um passado oprimido. Ele aproveita essa oportunidade para extrair uma época determinada do curso homogêneo da história; do mesmo modo, ele extrai da época uma vida determinada e, da obra composta durante essa vida, uma obra determinada. Seu método resulta em que na obra o conjunto da obra, no conjunto da obra a época e na época a totalidade do processo histórico são preservados e transcendidos. O fruto nutritivo do que é compreendido historicamente contém em seu interior o tempo, como sementes preciosas, mas insípidas.
(Sobre o conceito da história. Ensaio obtido em Walter Benjamin -– Obras escolhidas. Vol. 1. Magia e técnica, arte e política. Ensaios sobre literatura e história da cultura. Prefácio de Jeanne Marie Gagnebin. São Paulo: Brasiliense, 1987, p. 222-232.)

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