Cinema da Cidade

(Exercícios Benjaminianos)


Ato I Ato II Ato IV

Índice
(Ato III)


A cidade

(...) Stahl sees, in the freedom of roofing structures a freedom to which modern architects in Paris likewise adhere “a fantastic and thoroughly Ghotic element”. Fritz Stahl, Paris (Berlin 1929), pp. 79-80. apud (BENJAMIN, 1999, p. 148) 1

A defesa da ciência burguesa – com o que espera obliterar sua natureza mítica – é a eficiência, e a isso não se pode objetar: ela é concebida para subsumir e fazer trabalhar. Nisso, contudo, recusa a realidade da coisa, tanto quanto estabelece sua verdade e efetividade. Aquilo que conhecemos através da ciência é também uma redução unilateral, o precário traduzido nos termos da necessidade; a certeza do domínio, fundamentada na crença inabalável na mecânica newtoniana e na causalidade. Deste modo, tudo que cabe na linha do tempo; que pode adquirir um caráter diretamente evolutivo é considerado igualmente racional e lógico; ao passo que aos “acidentes” e às descontinuidades, às revoluções, se associa o atributo do erro, no sentido propriamente estatístico do termo o qual remanesce, contudo, um resto irracional, como preço do império da razão. A ciência, tanto quanto a religião, neste aspecto particular, é uma antropomorfização e apascentamento; tentativa de imputar ao mundo um sentido, às expensas da própria realidade.

Acresce, ainda, quando se é efetivamente conseqüente, que toda direção, vetor, recorte ou organização do real e no real são escolhas arbitrárias, injustificáveis em seus próprios termos, uma vez que um sentido ou intervenção determinados requerem como condição o que lhes antecede. Mas esta experiência anterior jamais é primária, o que exige uma regressão infinita, para legitimar o primeiro passo demanda-se portanto a totalidade e a história, no exato momento em que elas são negadas. O sentido, portanto, é sempre um lance de dados e um alinhamento precário, contra o qual o mundo permanentemente se revolta. O mundo tende ao caos, de que recolhemos sentidos segundo extrações irremediavelmente arbitrárias – algo que se percebe tão logo assumamos, por exemplo, o tempo geológico como horizonte da experiência, ou as formas naturais que se desenvolvem segundo regras não lineares.

Guardemo-nos! Guardemo-nos de pensar que o mundo é um ser vivo. Para onde ele iria expandir-se? Sabemos aproximadamente o que é orgânico; e o que há de indizivelmente derivado, tardio, raro, acidental, que percebemos somente na crosta da terra, deveríamos reinterpretá-lo como algo essencial, universal, eterno, como fazem os que chamam o universo de organismo? Isso me repugna. Guardemo-nos de crer também que o universo é uma máquina; certamente não foi construída com um objetivo, e usando a palavra “máquina” lhe conferimos demasiada honra. Guardemo-nos de pressupor absolutamente e em toda parte uma coisa tão bem realizada como os movimentos cíclicos dos nossos astros vizinhos; um olhar sobre a Via Láctea já nos leva a perguntar se lá não existem movimentos bem mais rudimentares e contraditórios, assim como astros de trajetória sempre retilínea e outras coisas semelhantes. A ordem astral em que vivemos é uma exceção; essa ordem e a considerável duração por ela determinada tornam possível a exceção entre as exceções: a formação do elemento orgânico. O caráter geral do mundo, no entanto, é o caos por toda eternidade, não no sentido de ausência de necessidade, mas de ausência de ordem, divisão, forma, beleza, sabedoria e como quer que se chamem nossos antropomorfismos estéticos. Julgados a partir de nossa razão, os lances infelizes são a regra geral, as exceções não são o objetivo secreto e todo aparelho repete sempre a sua toada, que não pode ser chamada de melodia e afinal, mesmo a expressão “lance infeliz” já é uma antropomorfização que implica uma censura. (...) (NIETZSCHE, 2005, p. 136 – grifos meus)

O sentido, portanto, é ao mesmo tempo uma descrição de regularidades e tensão para com a coisa, que transcende toda teleologia e nossas pretensões antropomórficas. A incompletude necessária da compreensão resta insuperável e é, portanto, como um reclamo da coisa; uma demanda pela integridade e inteireza; força tectônica que busca o caminho para fora e de volta e que requer, por conseqüência, redenção – e não há descanso nessa luta e na resistência que opõe. O reclamo da coisa é um lugar; o restabelecimento ou, do ponto de vista da história humana, a instituição de uma posição significativa, em que sua realidade possa enunciar-se não como aquilo que já morreu, mas como potência total. A verdade do objeto é um sistema de coordenadas, por meio do qual, ele se reconcilia consigo mesmo, na medida em que se reintegra à totalidade e à história como fluxo, o que pressupõe a superação de um alinhamento, de uma estrutura semântica, em que estas coordenadas já estejam dadas de antemão. Que o pensamento se organize segundo uma metáfora espacial, que excede a linha, ou seja, que se apresente segundo o plano, o registro cartográfico, altera de maneira significativa sua qualidade, especialmente porque uma mesma constelação2 contém infinitos caminhos possíveis; área e regiões, nós e entroncamentos. Este plano, contudo, é atravessado ainda por um eixo, que é o tempo, de tal modo que, ao fim, o pensamento converte-se em uma grandeza tetradimensional, com textura, volume, densidade, profundidade. A topografia da cidade, de certo modo, é uma figuração deste caráter arquitetural do pensamento.

A existência de afinidades entre a topografia da grande cidade e as estruturas mentais de seus habitantes era uma concepção cara a Benjamim "Desde há muitos anos, estou brincando com a idéia de organizar o espaço da vida (bios) graficamente, na forma de um mapa. Primeiro, pensei num mapa Pharus [...]". Aqui está ele imaginando um mapa da cidade equivalente à cartografia de sua vida afetiva. Esse mapa mnemônico de Berlim era estritamente pessoal, não destinado à publicação. Do ponto de vista formal, assemelha-se a um esboço de soneto, na tradição dos tableaux urbanos. Mas, sobretudo, esse Pharusplan de 1932 é um texto fundador, na medida em que instaura um código duplo, simultaneamente pictográfico e literário. Com isso, fornece uma chave privilegiada para o deciframento do outro mapa de cidade, constituído pelas siglas do Modelo das passagens, das quais é o modelo rudimentar e o único proto-texto.

* * *

O sistema benjaminiano das siglas inscreve-se na tradição da arte cartográfica e do gênero dos mapas de cidades. Ao mesmo tempo mimética e não-mimética, simples e complexa, essa forma de organização corresponde à necessidade de uma visão de conjunto e de uma orientação numa obra difícil, fragmentária e labiríntica. É uma iniciação ao espaço simultâneo e polifônico da metrópole moderna. Os diferentes planos que se sobrepõem neste mapa de Paris representam o tecido urbano em seus diversos níveis: redes subterrâneas e ctônicas (metrô, catacumbas), o traçado das ruas e praças na superfície, com seus cruzamentos, sinais, anúncios luminosos, e, acima, contra fundo escuro, a escrita do universo. Se reuníssemos todas as 30 siglas numa única página, não linearmente, mas segundo sua sintaxe espacial, obteríamos "a partir desses pontos luminosos, uma figura como uma constelação". (BOLLE, Willi. As siglas em cores no Trabalho das passagens, de W. Benjamin. Texto obtido no sítio Antivalor)


Broadway Boogie-Woogie

(Piet Mondrian, 1942-43)

_______________________________________________________

2 Constelações. Esta palavra é outra das metáforas de Benjamin, que vincula seus primeiros textos metafísicos com seus textos tardios, materialistas. Aparece centralmente em sua teoria da verdade, e para mim constituiu uma idéia muito produtiva. Se entendemos as estrelas como dados empíricos - fatos e fragmentos do passado - virtualmente ilimitados em número, virtualmente intemporais em sua existência, então nossa tarefa científica enquanto acadêmicos é descobri-los (ainda acredito em trabalho de arquivo), ao passo que a tarefa filosófica, logo política (como Benjamin, eu equiparo estes termos) é vincular esses fragmentos e fatos em figuras legíveis no presente, produzindo “constelações”, variantes da Verdade (é ainda o trabalho de arquivo que nos permite usar esta palavra). Numa sociedade ideal, conta-nos Benjamin, todas as estrelas seriam incluídas, e toda constelação seria legível. Mas na nossa isso é impossível. O poder distorce a visão dos céus, impondo seus pesados telescópios sobre certas áreas, de modo que sua importância se amplia, obstruindo outras de forma tão avassaladora, que ficam completamente invisíveis. Tal poder não é apenas imposto pelo Estado, mas está alojado na própria estrutura de nossas disciplinas - elas próprias aparelhos de ampliação, que encorajam a inserção de novas descobertas nas suas constelações de discurso já cartografadas, mudando seu foco apenas lentamente, para se adaptar à maré dos tempos. Nós, intelectuais, praticamos a agência crítica quando recusamos as cadeias dos signos astrológicos dominantes. Contudo, ignoramos os fatos (as estrelas) e ignoramos as tendências de nosso tempo ao próprio risco - tanto mais se queremos velejar contra a corrente. Ainda uma vez, em termos da abordagem de Benjamin, não basta produzir outras constelações, como as de história das mulheres, história dos negros ou semelhantes. Os fatos revelados por esses estudos visam explodir o contínuo cultural, não substituí-lo por um novo. Mais do que um fim em si mesmos, são estrelas a nos orientar em nosso próprio tempo, deixando ainda a desvendar a posição das velas e o próprio rumo da viagem. (BUCK-MORSS, Susan. Walter Benjamin: entre moda acadêmica e Avant-garde)


0 comentários: