Domingo no parque
Um show como mera diversão; a música como adereço do passeio, domingo promessa de redenção: o enfadonho pinta a paisagem, com cores cintilantes roubadas a um painel néon de antigamente - todo verde do parque não é mais do que a queda abissal em um propósito. O existente, enquanto ainda respira, já é uma mutilação; forma degradada e amorfa do desejo, daquele que ainda não descobriu que a vida o excede. Neste espelho, em que o mundo se omite, revelam-se (develop) as faces cujos traços passeiam nos fotogramas de um filme - seu destino final é a sessão da tarde, de que o domingo não é mais que uma extensão inconsciente. Toda surpresa é a realização de uma expectativa de cartão de felicitações; e o espontâneo, a natureza oculta do desde sempre programado, o estritamente esquemático: uma sonolência que exauriu a memória.
O firmamento é mais exuberante quando visto da prisão. Nisto se baseia a propaganda, com mãos tão firmes quanto a morte que um dia há de nos alcançar (e a morte, diferentemente da vida, não é pródiga).
Somente na liberdade do tempo livre e sem propósito se vê, nem tão ao longe, o mundo em todas as suas cores e detalhes, mas já como a execução de uma pena de degredo: as possibilidades como uma constrição e contração; o infinito como círculos recorrentes sobre si mesmos; tanto mais delgados quanto mais se impõem representar no estritamente limitado, toda a vastidão do amplo.
Christ's Entry into Brussels in 1889
James Ensor
http://en.wikipedia.org/wiki/James_Ensor
(1860-1949)
No parque, dificilmente o parque se distingue de uma pantomima macabra, ainda que seja apenas a exteriorização despreocupada, de toda a seriedade da semana: segunda-feira repleta de dobras suínas e horas adicionais, passeando em seu moletom; terça se exasperando de bicicleta, a ponto de atropelar em sua fúria de diversão aqueles pequenos cogumelos cebeçudos, de que as crianças não são mais do que representação intolerável; quarta levando os cachorros a se exercitar, por entre excrementos de muitas eras; quinta descansando o esqueleto sobre um banco entardecido; sexta depurando seus vômitos e excessos, como que se estivesse cumprindo um ritual, em benefício de um ídolo decrépito; sábado escancarando a janela da sala, para qual o sol é uma lâmpada imensa, que se compra em anúncios imobiliários. Esses dias cálidos, ninados pelo ranger pálido dos patinetes - que a moda vez por outra reinventa - e pelos brinquedos esquizóides que nos subtraem as crianças, são a forma iconográfica e o portal, por meio dos quais, se acessa o mundo como realidade espectral, e a vida como um baile de fantasmas; um festim dedicado a esgotar aquilo que respira na rigidez mineralizada não das pedras, mas dos rostos auto-esculpidos em esfinges.
Morangos Silvestres
(Ingmar Bergman, 1957)
A vida, na pedra, é a dureza como realização; nas faces, sua evasão, até que reste apenas uma imagem vazia, como aquela casa de que partimos quando ainda crianças de colo, e cuja memória não é mais do que a fé no que nos dizem. O parque, portanto, em toda sua exuberância é muito mais autêntico segundo uma lógica de cemitério: é um índice do que já houve; memória do que poderíamos ter sido; cava dos sonhos, que só nos aparecem como tormento diante do desvio, que se converteu em estrada principal - túmulo em que o humano já completamente desterrado assume os contornos holográficos, que o marketing projeta nos jornais e nas TVs. Nisso tudo, o sorriso não é mais do que uma contração facial dolorosa, uma deformação que universalizou a alegria como valor, mas apenas para afirmar a concepção segundo a qual o bom e o ruim; o elevado e o diretamente rebaixado são, nesta pantomima enlouquecida, reciprocamente indiferentes, uma vez que aquilo que os distingue existiria apenas no que já encontramos morto.
No primeiro romance burguês, o amor era a tensão problemática entre a auto-expressão e a auto-conservação e, portanto, uma fórmula demandando resolução e movimento. Quando, contudo, a auto-expressão é imediatamente um engodo e uma operação externa, ventriloquia, a auto-conservação passa a ser a fórmula vazia do amor, de maneira que todo herói romântico é uma farsa e, todo relacionamento, um beijo amargo, em uma orgia de bordel. Talvez por isso, nas calçadas por que passo, vejo flores vermelhas como vômitos; anéis de dedos amputados; fantasias defecadas, como ornamento aéreo dos passeios, e as prostitutas sorrindo como em um afresco angelical do Vaticano: há de fato uma santidade nesta forma evidentemente perversa e desesperada; resta nela um pequeno aposento, uma fração do ser, por minúsculo que seja, em que o sexo é uma gratuidade e uma alcova, em lugar de ser um reclamo histérico de auto-elogio1.
As bocas que se beijam têm o gosto metálico da morte: elas são uma porta como uma lança, que perpassa o outro, que reunido a cada um de nós, não existe senão para afirmar a foto emoldurada que se vê suspensa, como em um cadafalso. Segundo esta fórmula, a um tempo completamente arcaica e sinistramente contemporânea, todo amor, na justa medida de sua completa carnalidade, é um platonismo: amor da imagem, como devastação do olho.
Un Chien Andalou
(Montagem a partir de excertos)
http://br.youtube.com/watch?v=eU3QwnfSn2s
(Luis Buñuel, Salvador Dali)
Na modernidade todo o combate é injusto, porque a vitória é apenas a superimposição de meios descomunais relativamente à fragilidade do corpo, do psiquismo e da capacidade simbólica do homem. Os parques que vejo e que represento não têm lugar para o trágico ou para o amor e suas potências flamejantes. Neles cabem apenas o imenso poder destrutivo da impessoalidade, como vínculo ameno e conveniente. Nisto, todo o parque é uma recusa de seu espírito e todo amor a forma fria de um encontro cadavérico.
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1 Somente a massificação urbana permite à prostituição difundir-se por várias partes da cidade. É por isso que ela fascina, e sobretudo por ser objeto vendável. Quanto mais ela reveste a forma-mercadoria, mais excitante se torna (p. 427). Filha da metrópole capitalista, encarnação da mercadoria, ela aparece como artigo de massa. Daí a padronização da roupa e da maquilagem, tão bem simbolizada na padronização da roupa e da maquilagem das coristas, no teatro de revista (p. 437). Mercadoria e massa, a prostituta é a síntese do capitalismo e da cidade. Seu feitiço é o do fetichismo. Ao mesmo tempo, ela não é só o fetichismo, história petrificada em natureza; ela é também a promessa de uma relação mais harmônica com a natureza. De algum modo, ela representa a natureza como figura materna, ainda que degradada. Nas condições atuais, a mãe tem os traços da cortesã. Mas a mãe pode ser reencontrada sob os traços da cortesã. A prostituta é natureza corrompida vida que significa morte (p. 424). Mas é também a perspectiva de uma nova natureza, matriarcal, "a imagem distorcida, mas em tamanho natural de uma disponibilidade acessível a todos e que ninguém desencoraja" (p. 457). (ROUANET, Sergio Paulo. É a cidade que habita os homens ou são eles que moram nela? História material em Walter Benjamin "Trabalho das Passagens". Os números entre parênteses designam a página correspondente de Das Passagen-Werk (Frankfurt, Suhrkamp, 1982, ed. Rolf Tidemann), vol. V, tomos 1 e 2.

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