Maldito
Certamente, os adivinhos que interrogavam o tempo para saber o que ele ocultava em seu seio não o experimentavam nem como vazio nem como homogêneo. Quem tem em mente esse fato, poderá talvez ter uma idéia de como o tempo passado é vivido na rememoração: nem como vazio, nem como homogêneo. Sabe-se que era proibido aos judeus investigar o futuro. Ao contrário, a Torá e a prece se ensinam na rememoração. Para os discípulos, a rememoração desencantava o futuro, ao qual sucumbiam os que interrogavam os adivinhos. Mas nem por isso o futuro se converteu para os judeus num tempo homogêneo e vazio. Pois nele cada segundo era a porta estreita pela qual podia penetrar o Messias. (BENJAMIN, Walter. Sobre o conceito da história. Tradução de Sérgio Paulo Rouanet. Obras escolhidas. Vol. 1. Magia e técnica, arte e política. Ensaios sobre literatura e história da cultura. Prefácio de Jeanne Marie Gagnebin. São Paulo: Brasiliense, 1987, p. 222-232. Sítio Antivalor)
A necessidade pode ser uma forma extrema de liberdade e de libertação; um lampejo e uma fenda, por meio dos quais a eternidade irrompe na vida. Ainda que a necessidade seja da natureza do que é perene e constante, dificilmente sua percepção é mais do que um episódio e um momento total, fechado sobre si mesmo. Ordena-se o mundo, porém segundo uma lógica estritamente distinta do romance folhetinesco; no que se oferece a promessa de um destino, mas jamais uma redenção apoteótica. É um lugar no mundo, ainda que não seja uma sobredeterminação; uma posição em que todo acidental é devidamente eliminado, para que se afirme uma correspondência total entre o homem e sua trajetória. A compreensão desta fatalidade, contudo, se ela é verdadeira, se é amor fati, é igualmente uma tranqüilidade; a serenidade da brisa que penteia o mar; o sol envidraçado de inverno, vento que balança as árvores e que não se ouve. A compreensão da necessidade nos coloca a um passo além de nós mesmos, de maneira que nos tornamos uma segunda natureza e nos olhamos como uma partida, cujo destino é certo – uma flecha no tempo, mirando a origem.
Esta é a essência da questão que me coloco e que a minha conformação obriga. Entre as formas possíveis e úteis de minha existência e o ser que sou existe uma parede, que não posso transpor, tanto quanto não quero fazê-lo. Sigo assim transparente e invisível, como quem perambulasse por um universo paralelo. Somos, então, contíguos sem sermos contemporâneos e aquilo que de mim se pode ver é apenas uma redução espacial, cujo vetor no tempo se tornou refratário e rebelde. Recuso, nesta divergência que sou, tudo aquilo que se pretende inaudito e novo, mas cujas carnes e entranhas já degradaram e apodreceram ainda no nascedouro; renego os requerimentos de um conhecimento que se requer original e inovador, e faz disso a condição de entrada naquilo que está institucionalizado e firme: em suas certezas o vazio se reconhece no abraço caloroso do poder e no ufanismo daqueles que colonizam todos os quadrantes da existência, com sua cultura de morte e ossos.
Guerra Civil Espanhola
http://www.english.uiuc.edu/maps/scw/photessay.htm
Não compactuo com a hipocrisia e a vilania que se quer afirmar e que prega, de conformidade com suas renúncias, que este é um mundo possível, pois eu o vejo como escombros e ruínas. Repito, reproduzo e reverbero as feridas do tempo, suas chagas; tudo aquilo que se deixou para trás, mas que ainda é um peso de cadáveres, caixões e mausoléus sobre os ombros da existência; mantenho íntegras as cores cinza, de todos aqueles infinitos dias em que acedemos à vida em seus requerimentos de decisões pragmáticas. Nisto eu sou maldito e tomo, portanto, resolutamente a forma que me corresponde, assim como as conseqüências de um estranhamento recíproco. Este livro, portanto, naquilo que afirma, é igualmente uma recusa; um desejo de manter-se improdutivo, mas operante. Nisto, contudo, não há mágoa ou rancor; não há ressentimento, apenas a tranqüilidade do que se abandonou à sua própria inclinação. Na conformidade comigo mesmo, poupo ao mundo o acréscimo do meu ódio. Pacificado, portanto, ouço ainda soar a música que acompanha a pantomima: como haveríamos de ser muito mais do que este picadeiro; porque deveríamos estar além de nossas formas diretamente cômicas e burlescas? Não me excluo em absoluto da função; muito ao contrário, o maldito em mim se expressa mais propriamente por tomar como meu o papel do palhaço, requerendo do mundo não as potências do existente, mas as virtualidades de suas promessas.

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