Cinema da Cidade

(Exercícios Benjaminianos)


Ato I Ato II Ato IV

Índice
(Ato III)


Misticismo


O sol rasga o céu: adagas incandescentes, delgadas como um calafrio, arremetem contra a noite1. A manhã, trajada em vivacidade de passaredo, rouba o véu prata, com que o mundo se vestia. Acordo de um sonho vazio; diante de mim o verdume: tinha que ser assim em um mundo programado. O cataclismo não poderia se resolver nas formas irregulares e agudas da destruição e do caos, que são igualmente uma promessa de liberdade e renascimento. O desastre tomou, então, a forma do gramado infinito: uma ordem oca, como o ainda subliminarmente natural. Mas o reverso da beleza esquemática e sôfrega da superfície é um cemitério sem fronteiras. Porque absurdos da ordem de Hiroshima não haveriam de libertar energia suficiente para, ao final, produzir um mundo irremediavelmente plano?


Rosa de Hiroshima

Pensem nas crianças
Mudas telepáticas
Pensem nas meninas
Cegas inexatas
Pensem nas mulheres
Rotas alteradas
Pensem nas feridas
Como rosas cálidas
Mas oh não se esqueçam
Da rosa da rosa
Da rosa de Hiroshima
A rosa hereditária
A rosa radioativa
Estúpida e inválida
A rosa com cirrose
A antirosa atômica
Sem cor nem perfume
Sem rosa sem nada.


(Gerson Conrad e Vinícius de Moraes)

Neste mundo informe restam silêncio e sementes, e o altamente improvável da semeadura é um beijo na liberdade: é necessário que tudo se veja dependente de uma ínfima probabilidade, pois a vida deve desejar a vida, sendo ela, nisso, apenas o infinito espocar do efêmero no eterno2. Neste não terminar do tempo, deveríamos ser não mais do que um abraço, um sopro e um halo, com os quais se trama a tessitura daquela imensa obra, que alucinamos em uma palavra: DEUS.3

Raramente nos ocorre pensar que o denso e o rígido nascem do imaterial e que a impenetrabilidade não é uma propriedade do que é duro, mas decorre do entrelaçamento de infinitas redes de conexões, que ligam uma miríade de pontos, os quais, em si mesmos, não ocupam qualquer dimensão espacial4. O existente é uma textura, de que o texto quer ser uma representação:

Tecendo a manhã

Um galo sozinho não tece a manhã;

ele precisará sempre de outros galos.

De um que apanhe esse grito que ele

e o lance a outro: de um outro galo

que apanhe o grito que um galo antes

e o lance a outro; e de outros galos

que com muitos outros se cruzem

os fios do sol de seus gritos de galo,

para que a manhã, desde um teia tênue,

se vá tecendo, entre todos os galos.

João Cabral de Melo Neto

E mesmo que a semeadura seja negada, ainda que não a compreendam, é preferível dissipar-se na forma de um afago impossível a aprisionar a existência no sarcófago pestilento e rico a que nos convidam. A compreensão é um apascentamento que não se deve a prevalecermos, mas ao valor segundo o qual a vida é a medida – a filosofia deve conduzir-nos a sermos simpáticos à vida. Naquilo que faço, portanto, não procuro ser mais nem maior que o mundo. Desejo apenas os abraços que nos negam e a hospitalidade que nos recusam. Anseio pela substância daquele sonho que dizem que compartilhamos, quando o mundo não era mais do que uma barriga. Quero o poder imenso desta imagem, exatamente porque a reconheço como aquilo que ainda é uma mentira: para que vida ame a vida, é preciso que o mundo seja fraterno5. Almejo, portanto, ser programaticamente artificial e meramente provável como a cultura, pois neste mundo humano e precário está contida toda possibilidade de redenção: a salvação é uma potência estritamente laica.

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1 Essa era uma das artérias principais da cidade e regurgitara de gente durante o dia todo. Mas, ao aproximar-se o anoitecer, a multidão engrossou, e, quando as lâmpadas se acenderam, duas densas e contínuas ondas de passantes desfilavam pela porta. Naquele momento particular do entardecer, eu nunca me encontrara em situação similar, e, por isso, o mar tumultuoso de cabeças humanas enchia-me de uma emoção deliciosamente inédita. Desisti finalmente de prestar atenção ao que se passava dentro do hotel e absorvi-me na contemplação da cena exterior. (POE, Edgar Allan. O homem na multidão.)

2 A alegoria instala-se de forma mais estável nos momentos em que o efêmero e o eterno se aproximam. (BENJAMIN, 2004, p. 247)


3Em Através de um espelho, 1961, Ingmar Bergman desenvolve uma fantástica reflexão sobre Deus, através das alucinações da protagonista do filme. O diálogo final, contudo, em que a verdade “se revela” ao filho como sendo da natureza de que “tudo pode nos acontecer” é de extrema beleza, justamente porque nos coloca face a face diante do vazio e da ausência prévia de sentido; condenados, portanto, a edificar o mundo sem quaisquer garantias metafísicas, a não ser aquelas que podermos derivar de nossa experimentação do existente, à parte da idéia de um deus. Esta temática se recoloca em Luz de Inverno (1962) de uma maneira igualmente dramática, através de um pastor que desespera diante da própria monstruosidade da idéia de um Deus, conforme ele o concebia.

Através de um espelho:

Excerto youtube: http://br.youtube.com/watch?v=mbcgov_BQdg

Luz de Inverno:

Excerto youtube: http://br.youtube.com/watch?v=-Ilhq2L4Zcw

4 A infinitude da reflexão é para Schlegel e Novalis, antes de tudo não uma infinitude da continuidade, mas uma infinitude de conexões. Isto é decisivo, justamente com o seu caráter temporal inacabável e antes mesmo dele, que deve ser compreendido de outra maneira que não uma progressão vazia. Hölderlin, apesar de não ter tido contato com algumas idéias dos primeiros românticos (...), proclamou a última e incomparavelmente profunda palavra, escrevendo em um lugar onde ele quis expressar uma conexão, a mais acertada e interna: “Conectar infinitamente (exatamente)”. Schlegel e Novalis tinham em mente o mesmo quando compreenderam a infinitude da reflexão como infinitude realizada do conectar: nela tudo devia se conectar de uma infinita multiplicidade de maneiras, sistematicamente como nós diríamos hoje em dia, “exatamente”, como diz Hölderlin com mais simplicidade. Essa conexão pode ser compreendida mediatamente a partir de níveis infinitamente numerosos de reflexão, na medida em que gradualmente o conjunto das demais reflexões seja percorrida por todos os lados. Na mediação por reflexões não existe, no entanto, em princípio, nenhuma oposição com relação à imediatez do compreender via pensamento, pois toda reflexão é em si imediata. (BENJAMIN, 2002, p. 34-35)

5 In the ideas of the proletarians, … who confused the finance aristocracy with the bourgeoisie in general; in the imagination of good old republicans, who denied the very existence of class or, at most, admitted then as result of the constitutional monarchy; in the hypocritical phrases of the segments of the bourgeoisie up till now excluded from the power - in all these, the rule of the bourgeoisie was abolished with the introduction of the republic. All the royalists were transformed into republicans, and all the millionaires of Paris into workers. The phrase which corresponded to this imagined liquidation of class relations was fraternité. MARX, Karl. Die Klassenkämpfef Frankreich apud BENJAMIN, 2002, p. 123)

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