Cinema da Cidade

(Exercícios Benjaminianos)


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(Ato III)


A natureza paradoxal do desenvolvimento da ciência


Os desenvolvimentos estritos da ciência – no que se pode abstratamente considerá-los como independentes da tecnologia – não nos trouxeram efeitos menos paradoxais, mas, muito ao contrário, já explodiram o mundo de que a nossa experiência sensível se apropria. Aquilo sobre o que nos apoiamos é a luz de uma estrela que já morreu, e que nos orienta apenas por meio de seu estertor. O que é a causalidade, se todo resultado é, a rigor, probabilístico; o que é o tempo linearmente concebido, se o presente pode depender do futuro para se consubstanciar; se o passado é o exatamente agora? O que é o princípio de identidade se, por exemplo, um elétron é ao mesmo tempo onda e partícula, não como aquilo que se desenvolve, mas em relação ao meio em que se desloca? O que é a singularidade, se admitirmos a hipótese de um universo sem costura, que liga imediatamente tudo a tudo, onde tudo interage de maneira direta - o que ocorre aqui com a noção de causalidade? Qual é nossa efetiva posição no espaço, se no mundo subatômico não se pode conhecer a trajetória de um elétron, e se seu lócus é apenas uma probabilidade? E o que nos insinua o teorema de Bell, ao demonstrar uma unidade absoluta do existente; ao questionar a velocidade da luz como limite cósmico? E suposição de que a realidade possa admitir infinitos mundos, de maneira que eventos simultaneamente excludentes se realizem? Como representaremos os objetos, se de fato a matéria for o vazio e sua textura – sua materialidade - probabilidades de conexões?

Este é o efeito mais bizarro de nossa época: à medida em que evoluíram de maneira descomunal nossas possibilidades de intervenção sobre a natureza e sobre nós mesmos, desorganizou-se por completo o modo como costumávamos representar aquela mesma natureza, assim como as leis que acreditávamos regê-la. Crescem, portanto, os meios materiais de nossa ação e seu potencial de transformação e destruição, mas diminuem os motivos pelos quais deveríamos acreditar que os efeitos de nossa atuação possam ser conhecidos ex ante. Nosso poder cresce em razão inversamente proporcional, portanto, ao grau de certeza que temos sobre os resultados de nossas ações.

Outubro

Sergei Eisenstein

http://www.ipv.pt/forumedia/5/20.htm

O desenvolvimento científico, complementarmente, nos colocou perto demais das coisas, e em lugar de as vermos com mais detalhes e com mais realidade, vemos que a realidade de que partimos não é mais do que uma aproximação, que temos que reconsiderar criticamente. A ciência demonstra recorrentemente que nosso conhecimento do espaço e do tempo, fundamentados na mecânica newtoniana - lógicos do ponto de vista especulativo e eficazes no que se refere à prática -, nos conduzem a representações da realidade que são exceções e que a natureza resta, essencialmente, por conhecer; que as formas a partir das quais nos apropriamos do mundo não são nada além de uma miopia, uma representação metafórica do existente.

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