Cinema da Cidade

(Exercícios Benjaminianos)


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Índice
(Ato III)


O novo animismo

Na contemporaneidade nossa atenção é atraída por uma multiplicidade de signos numinosos, dotados de luz própria - figurações que a propaganda, ou a arte de conveniência geram: o carro, o shopping center, o filme e seu herói, a coquete devidamente esculpida, o sex simbol, o super-atleta, a viagem pelo glamour de Paris, as cataratas do Niágara, New York, com Frank Sinatra em fundo musical, etc. Promessas de felicidade... De outra parte, vivemos sob a égide do risco, mas na qualidade de sua antecipação ansiosa e na angústia do imprevisível: o trânsito, o avião transformado em projétil, o criminoso, a bala perdida, o car crash, o desemprego em função da transferência de uma planta industrial alemã para a Lituânia - tudo tão incerto e sem origem previsível, a ponto de justificar uma sociologia do risco, conforme ela aparece em Anthony Guiddens. Essas representações engendram um mundo que parece estar animado: o prazer e o infortúnio vêm de fora, como potências extra-humanas.

Mas isto é, de certo modo, uma apropriação animista do mundo, a presença ou permanência de uma apropriação mágica da realidade; a firme expectativa de que sejamos, de algum modo, redimidos pelo fantástico, que nos acomete, de fora e por meio do consumo1 - que se realiza na esfera privada, e eventualmente na intimidade.

(...) No entanto, a esse nível bastante superficial, é permitido arriscar a seguinte comparação: é o pensamento mágico que governa o consumo, é uma mentalidade sensível ao miraculoso que rege a vida quotidiana, é a mentalidade primitiva, no sentido de que foi definida como baseada na crença na onipotência dos pensamentos: no caso presente, trata-se na crença da onipotência dos sinais de felicidade. (BAUDRILLARD, 1975, p. 26)

Contudo, o animismo, para ser efetivo, deve ser de uma natureza tal que requer o homem como algo anterior ao indivíduo, como nós o conhecemos na sociedade burguesa, pois ele implica um certo nível de indiferenciação para com a natureza.

Questões: que tipo psicológico poderia apropriar-se do mundo animicamente? É possível referir-se a ele como individuado, do ponto de vista psicológico? E se ele for, de fato, esta fusão parcial com o mundo que o animismo implica, quais são as conseqüências? Mas, uma vez ocorrido o primeiro ciclo reprodutivo deste tipo, não nos colocamos já na situação segundo a qual o real funda o homem como um proto-indivíduo, ao passo que este proto-indivíduo apercebe-se do mundo apenas como uma extensão anímica do seu corpo? O que é o animismo em uma sociedade tecnologicamente desenvolvida? O que tudo isso tem a ver com a forma na literatura, na pintura, com o cinema enquanto expressão artística, com o fotograma? Há uma relação necessária com o estilhaçamento cubista; com as formas fantásticas de Kafka; com a estrutura do tempo em Proust? Se a ordem do real fosse uma irrupção do inconsciente, se a maturidade fosse a infantilização enquanto processo, como deveríamos representar as imagens, o tempo e a linguagem?

Célèbes or Elephant Célèbes. 1921

Pegue um jornal.
Pegue a tesoura.
Escolha no jornal um artigo do tamanho que você deseja dar a seu poema.
Recorte o artigo.
Recorte em seguida com atenção algumas palavras que formam esse artigo e meta-as num saco.
Agite suavemente.
Tire em seguida cada pedaço um após o outro.
Copie conscienciosamente na ordem em que elas são tiradas do saco.
O poema se parecerá com você.
E ei-lo um escritor infinitamente original e de uma sensibilidade graciosa, ainda que incompreendido do público.

(Tristan Tzara)

Em nossa época o simbolismo mais radical não seria exatamente uma exposição realista do mundo? A verdade do mundo não é sempre, em algum grau, a narrativa de seu absurdo? A arte - em sua acepção moderna - não é exatamente aquilo que resiste ao inverídico da realidade e, portanto, em nossa época, não deve demonstrar que a totalidade é diretamente um processo de retalhamento e de junção arbitrária de elementos; um presente eterno, porque nenhuma memória está verdadeiramente carregada de afeto? O arbitrário dessa junção não demonstra que se encontra, recorrentemente, como resultado da extração aleatória de elementos, a relação das coisas indiferentes entre si, mas materialmente ligadas por esta mesma indiferença? Não ocorre, ao fim, a prevalência absoluta e totalitária de um ordenamento, ainda que não se possa atribuir a ele qualidades humanas?

Não, está claro que as ações da experiência estão em baixa, e isso numa geração que entre 1914 e 1918 viveu uma das mais terríveis experiências da história. Talvez isso não seja tão estranho como parece. Na época, já se podia notar que os combatentes tinham voltado silenciosos do campo de batalha. Mais pobres em experiências comunicáveis, e não mais ricos. Os livros de guerra que inundaram o mercado literário nos dez anos seguintes não continham experiências transmissíveis de boca em boca. Não, o fenômeno não é estranho. Porque nunca houve experiências mais radicalmente desmoralizadas que a experiência estratégica pela guerra de trincheiras, a experiência econômica pela inflação, a experiência do corpo pela fome, a experiência moral pelos governantes. Uma geração que ainda fora à escola num bonde puxado por cavalos viu-se abandonada, sem teto, numa paisagem diferente em tudo, exceto nas nuvens, e em cujo centro, num campo de forças de correntes e explosões destruidoras, estava o frágil e minúsculo corpo humano.

James Ensor

(1860-1949)

http://www.all-art.org/history568.html

Uma nova forma de miséria surgiu com esse monstruoso desenvolvimento da técnica, sobrepondo-se ao homem. A angustiante riqueza de idéias que se difundiu entre, ou melhor, sobre as pessoas, com a renovação da astrologia e da ioga, da Christian Science e da quiromancia, do vegetarismo e da gnose, da escolástica e do espiritualismo, é o reverso dessa miséria. Porque não é uma renovação autêntica que está em jogo, e sim uma galvanização. Pensemos nos esplêndidos quadros de Ensor, nos quais uma grande fantasmagoria enche as ruas das metrópoles: pequeno-burgueses com fantasias canavalescas, máscaras disformes brancas de farinha, coroas de folha de estanho, rodopiam imprevisivelmente ao longo das ruas. Esses quadros são talvez a cópia da Renascença terrível e caótica na qual tantos depositam suas esperanças. Aqui se revela, com toda clareza, que nossa pobreza de experiências é apenas uma parte da grande pobreza que recebeu novamente um rosto, nítido e preciso como o do mendigo medieval. Pois qual o valor de todo o nosso patrimônio cultural, se a experiência não mais o vincula a nós? A horrível mixórdia de estilos e concepções do mundo do século passado mostrou-nos com tanta clareza aonde esses valores culturais podem nos conduzir, quando a experiência nos é subtraída, hipócrita ou sorrateiramente, que é hoje em dia uma prova de honradez confessar nossa pobreza. (BENJAMIN, Walter. Experiência e pobreza. Obras escolhidas. Vol. 1. Magia e técnica, arte e política. Ensaios sobre literatura e história da cultura. Prefácio de Jeanne Marie Gagnebin. São Paulo: Brasiliense, 1987, p. 114-119. Sítio: Anti Valor – grifos meus)

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1 Alguns links no youtube veiculando propagandas de diferentes ordens:

Lengerie; Levis; Levis 2; Chervrolet; Toyota|; Pegeaut; Citroen; Mercedez; Hyunday; BMW; Carro; Sandálias Havaianas; Sandálias Havaianas 2

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