Cinema da Cidade

(Exercícios Benjaminianos)


Ato I Ato II Ato IV

Índice
(Ato III)


O procedimento abstrato


On “the exploitation of nature” (...): such exploitation was not always regarded as the basis of human labor. To Nietzsche, it quite rightly seemed worthy of remark that Descartes was the first philosophical physicist who “compared the discoveries of scientists to a military campaign waged against nature”. (…) (BENJAMIN, 1999, 369)


A abordagem meramente intelectual do objeto não acrescenta verdade à sua existência, ainda que o torne produtivo e funcional. A rigor, as operações e procedimentos abstratos, tanto quanto nos aproximam de um certo conhecimento da coisa, dela nos afastam, posto que são, ao mesmo tempo, violência contra ela: o saber como mortificação e fossilização; a apropriação como extração do objeto de sua unidade com o mundo, o abandono da estrutura viva e concreta, em que se desenrolava sua existência. O pensamento abstrato - não dialético - está obrigado a seguir este percurso e não pode iniciar a apropriação da coisa de outro modo: a abordagem abstrata e racionalista, o método científico naquilo que tem de rigor e determinações canônicas, não é apenas uma opção entre outras, mas a forma através da qual o progresso se enuncia e auto-analisa. O método científico não se destina à apropriação da realidade, mas a sua instituição como sonho1 (razão pela qual, em grande medida, “The reform of consciousness consists solely in... the awakening of the world from its dream about itself. (letter from Marx to Huge; Kreuzenach, September 1843) apud (BENJAMIN, 1999, p. 456)


O conhecimento como nós o concebemos, como saber científico, é também uma estratégia 2, ou seja, a aproximação da coisa segundo uma formação militar; redução pela força, mesmo quando não se usa da violência. Na ciência a história é igualmente e necessariamente paleontologia, pois atinge a coisa como aquilo que já está morto. A predição, então, é correlatamente uma mecânica; extrapolação da interpolação; o futuro segundo a cláusula ceteris paribus. No mundo em que a certeza é divinizada, ainda que com os afagos e louvores que se dedica à puta - que se nega e se idolatra; a que se entrega na convicção do domínio - a probabilidade é apenas um ardil por meio do qual se introduz aquilo que é determinado e ocluso. A incerteza resta, portanto, como os véus sobre o sexo da odalisca, de tal modo que tanto mais ela é enunciada, tanto mais o olho se orienta para além dela.


Na condição de forma histórica, de elemento no desenvolvimento cultural, a ciência é, contudo, mais do que um puro isto: é uma relação tensa e necessária com o mito. A ciência, nesse sentido, é um programa e uma utopia, cujo fundamento é a edificação de uma apropriação não mítica do mundo. Na consubstanciação desta meta o método adquiriu uma importância absolutamente singular, pois se esperou que dele e de seu formalismo emergisse o conhecimento em sua absoluta pureza, descontaminado da imersão nas fontes do irracional e de todo sensualismo. Não é em absoluto acidental, portanto, que nessa ânsia de especificar e de organizar, de enunciar, o método se desenvolvesse, a rigor, como uma estrutura lingüística específica, um idioma universal, cuja sintaxe é o aspecto formal de uma aridez constitutiva; manifestação cultural de uma utopia inumana.


Esperava-se que desta prática metodológica3 surgisse a verdade do objeto, sua apropriação e reconstrução, por meio de operações formais e racionais, através das quais ele fosse efetivamente explicado e descrito, ou seja, revelado e desnudado em sua existência e desenvolvimento, completamente apartado das expectativas e intenções do sujeito que conhece. Esta disjunção entre sujeito e objeto, no que se oferecem reciprocamente como entes autônomos, ainda que animada pelo mais evidente do senso comum, mesmo ela, não é de todo evidente, contudo, quer à especulação filosófica, quer ao desenvolvimento científico contemporâneo, especialmente no campo da física. No entanto, para todos os efeitos práticos, para os requerimentos da pesquisa acadêmica, conforme ela se orienta a partir das salas dos professores e das regras de submissão dos projetos de financiamento, bolsas de estudo, etc. o mundo é rigorosamente newtoniano.


É curioso, no entanto, que o método científico, ainda que tendo definido com todo acuidade seu operar interno, de modo a evitar inconsistências e extravagâncias que superem a ordem precisa do racional e do empírico – definindo, portanto, o território daquilo que é comparável e replicável – parta de supostos que, rigorosamente, não se pode confirmar. Há, portanto, antecedentes do método que nos conduzem ao mundo, segundo representações que não lhe são necessariamente inerentes, ainda que sejam efetivamente realidades culturais e históricas. Supomos como pertinentes ao objeto e ao mundo exatamente aqueles elementos formais, que são imanentes ao estágio de desenvolvimento de nossa organização intelectual, que, à sua vez, é uma grandeza histórica, e não um ordenamento abstrato e natural do psiquismo humano como tal.

(...) Não existe, a rigor, uma ciência “sem pressupostos”, o pensamento de uma tal ciência é impensável, paralógico: deve haver antes uma filosofia, uma “fé”, para que a ciência dela extraia uma direção, um sentido, um limite, um método, um direito à existência. (Quem entende o contrário, quem, por exemplo, se dispõe a colocar a filosofia “sobre base estritamente científica”, precisa antes colocar não só a filosofia, mas também a verdade de cabeça para baixo: a pior ofensa ao decoro que se poderia cometer com duas damas tão respeitáveis!) (NIETZSCHE, 1988, p. 172) (ver § 344, Gaia Ciência)


Deste modo, damos como auto-evidentes as relações de causalidade, a linearidade do tempo, o desenvolvimento como evolução; a história como progresso. Supomos, acima de tudo, um sentido intrínseco ao movimento, tanto o natural quanto o cultural, que caberia à ciência, e exclusivamente a ela, capturar e revelar. Postula-se, portanto, que a coisa e o mundo possuem um ordenamento, uma organização teleológica; racionalidade e regularidade; sentido. Aquilo se supõe ser a realidade do objeto talvez seja, contudo, não mais do que sua antropomorfização:


Causa e efeito - “Explicação”, dizemos; mas é “descrição” o que nos distingue dos estágios anteriores do conhecimento e da ciência. Nós descrevemos melhor - e explicamos tão pouco quanto aqueles que nos precederam. Descobrimos múltiplas sucessões, ali onde o homem e o pesquisador ingênuo de culturas anteriores via apenas duas coisas, “causa” e “efeito”, como se diz; aperfeiçoamos a imagem do devir, mas não fomos além dessa imagem, não vimos o que está por trás dela. Em cada caso, a série de “causas” se apresenta muito mais completa diante de nós, e podemos inferir: tal e tal coisa têm de suceder antes para que venha essa outra - mas nada compreendemos com isso. Em todo devir químico, por exemplo, a qualidade aparece como um “milagre”, agora como antes, e assim também todo deslocamento; mingúem “explicou” o empurrão. E como poderíamos explicar? Operamos somente com coisas que não existem, com linhas, superfícies, corpos, átomos, tempos divisíveis, espaços divisíveis - como pode ser possível explicação, se primeiro tornamos tudo imagem, nossa imagem! Basta considerar a ciência a humanização mais fiel possível das coisas, aprendemos a nos descrever de modo cada mais preciso, ao descrever as coisas e sua sucessão. Causa e efeito: essa dualidade não existe provavelmente jamais - na verdade, temos diante de nós um continuum, do qual isolamos algumas partes; assim como percebemos um movimento apenas como pontos isolados, isto é, não o vemos propriamente, mas o inferimos. A forma súbita com que muitos efeitos se destacam nos confunde; mas é uma subitaneidade que existe apenas para nós. Neste segundo de subitaneidade há um número infindável de processos que nos escapam. Um intelecto que visse causa e efeito como um continuum, e não, à nossa maneira, como arbitrário esfacelamento e divisão, que enxergasse o fluxo do acontecer - rejeitaria a noção de causa e efeito e negaria qualquer condicionalidade. (NIETZSCHE, 2005, p. 140)


Ao assumimos os pressupostos historicamente necessários de nosso pensamento – o sentido e a regularidade, a causalidade, a mecanicidade newtoniana –, como propriedade das coisas, edificamos, por conseqüência, uma apropriação mágica, irrealista do real, ainda que ela se ofereça a nós apenas na qualidade da mais elevada objetividade. Dá-se assim o grande salto: existiria uma verdade que emana do objeto ele mesmo, a qual é revelada pela ciência, não como elemento da cultura, mas como decifração imediata daquilo que se conhece. Nessa operação, contudo, a ciência, que se erigiu em oposição ao mito, mitifica-se: deixa de ser irremediavelmente humana, para ser revelação, linguagem do objeto segundo o próprio objeto, reduzindo-se o homem a recipiente vazio e passivo. A ciência, portanto, que pretendeu libertar o homem de Deus, de sua condição de menoridade perpétua, submete-o a uma outra natureza de sujeição: a objetividade científica, como forma suprema de conhecimento e verdade canônica. A ciência como mito é o progresso, a convicção firme não apenas de uma evolução, mas de uma ascensão contínua, que nos leva do proto-humano ao super-humano – não, contudo, como o processo que nos humaniza, mas que nos converte em realidade maquinal, sujeitando-nos àquilo que há de eterno na máquina, o repetir-se indefinidamente.


Procurando as raízes, os fundamentos metodológicos de tal incompreensão catastrófica, que contribuiu para a derrota do movimento operário alemão em 1913, Benjamin ataca a ideologia do progresso em todos os seus componentes: o evolucionismo darwinista, o determinismo de tipo científico-natural, o otimismo cego — dogma da vitória "inevitável" do partido — e a convicção de "nadar no sentido da corrente" (o desenvolvimento técnico). Em uma palavra, a crença confortável em um progresso automático, contínuo, infinito, fundado na acumulação quantitativa, no desenvolvimento das forças produtivas e no crescimento da dominação sobre a natureza. Ele crê descobrir por detrás de tais manifestações múltiplas um fio condutor que submete a uma crítica radical: a concepção homogênea, vazia e mecânica (como um movimento de relojoaria) do tempo histórico. (LÖWY, Michael. A filosofia da história de Walter Benjamin)

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1 Fica a pergunta: se a ideologia não é mais o fundamento da ordem, como se dá a hegemonia nas sociedades altamente industrializadas? A resposta que Habermas retoma, já havia sido sugerida por Marcuse (1941) muito antes de serem publicadas suas teses sobre a sociedade industrial. Em seu artigo sobre implicação da tecnologia moderna, pela primeira vez se apresenta um argumento explícito que resolve, teoricamente, no interior do sistema frankfurtiano, o problema colocado. Quando Marcuse define a tecnologia como um modo de organização que perpetua as relações sociais, uma forma dominante de pensamento e de comportamento, ele descobre na técnica uma dimensão que até então era atribuída somente às legitimações. Reconhece-se assim que a técnica desempenha nas sociedades atuais o mesmo papel que tinha a ideologia nas sociedades tradicionais. Com o capitalismo, o saber racional, que anteriormente definia um subsistema, se espalha, e pouco a pouco toma conta da sociedade como um todo. O espírito da racionalidade transborda os limites da fábrica (esfera do trabalho) e se transforma em racionalidade tecnológica que subjugaria até mesmo a própria subjetividade. O homem unidimensional é portanto um produto histórico, ele caracterizaria um tipo de humanidade que não mais se relacionaria através do ato comunicativo,e que estaria confinada à esfera, agora abrangente e dominante, do agir racional-com-respeito-a-fim. (ORTIZ, Renato. A Escola de Frankfurt e a questão da cultura)

2 Acepções:

substantivo feminino

1.Rubrica: termo militar.

arte de coordenar a ação das forças militares, políticas, econômicas e morais implicadas na condução de um conflito ou na preparação da defesa de uma nação ou comunidade de nações

2. Rubrica: termo militar.

parte da arte militar que trata das operações e movimentos de um exército, até chegar, em condições

vantajosas, à presença do inimigo

Obs.: cf. tática (mil)

3. Derivação: por extensão de sentido.

arte de aplicar com eficácia os recursos de que se dispõe ou de explorar as condições favoráveis de que porventura se desfrute, visando ao alcance de determinados objetivos

4. Derivação: por extensão de sentido.

ardil engenhoso; estratagema, subterfúgio

Etimologia

stratégía,as 'o cargo do comandante de uma armada, o cargo ou a dignidade de uma espécie de ministro da guerra na antiga Atenas, pretor, em Roma; manobra ou artifício militar', pelo fr. stratégie (1812, stratège 1712 arql.vb; a prosódia atual sofre infl. das palavras abstratas em ia, como em lat.
Sinônimos
estratégica, estrategismo.

(Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa – Versão Eletrônica (UOL)

3 Neste diálogo temos em mente especialmente o positivismo lógico e o pragmatismo, ainda que se trate de escolas de pensamento distintas e autônomas.

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