Progresso e ruína
A ciência burguesa tem por meta a verdade, ou seja, o enunciado canônico, que se obtém ao preço do sacrifício da vida do objeto, reduzido que foi a suas sombras abstratas. Sua base está no mito, na medida em que acredita, ainda que negue em seus devaneios epistemológicos, poder atingir a verdade da coisa, como realidade sensível, e não como elemento da cultura - produto precário, probabilístico, cuja existência, para o homem, ocorre no interior da história, com fundamento no desenvolvimento da linguagem.
Quando, no drama trágico, a história migra para o cenário da ação, ela fá-lo sob a forma de escrita. A palavra “história” está gravada no rosto da natureza com os caracteres da transitoriedade. A fisionomia alegórica da história natural, que o drama trágico coloca em cena, está realmente presente na forma da ruína. Com ela, a história transferiu-se de forma sensível para o palco. Assim configurada, a história não se revela como processo de uma vida eterna, mas antes como o progredir de um inevitável declínio. Com isso, a alegoria coloca-se declaradamente para além da beleza. As alegorias são, no reino dos pensamentos, o que as ruínas são no reino das coisas. (BENJAMIN, 2004, p. 192-193)
A história, contudo, diverge do historicismo, ou seja, de uma concepção linear do tempo que, a rigor, é auto-elogio, ou seja, valoração positiva do presente, como razão ascendente de todo o passado. Sob a perspectiva dos derrotados o presente é um amontoado de ruínas1, em que se sobressaem as formas assombradas de tudo aquilo que é material, e por meio justamente de sua perfectibilidade e realidade. Não se trata, portanto, de desvelar o que está oculto ou escondido, mas de plasmar a imagem objetiva, material, que cada monumento da cultura tem para os derrotados e preteridos. A alegoria e a imagem alegórica não são apenas figura de linguagem e figuração, um recurso estilístico, mas abordagem que desvela o real naquilo que tem de tenso e inverossímil. A perspectiva que surpreende a realidade em sua falsidade constitutiva tem uma origem ótica: o olhar da revolução.
“A Origem é o Alvo.”
Karl Kraus, Palavras em verso
A história é objeto de uma construção cujo lugar não é o tempo homogêneo e vazio, mas um tempo saturado de “agoras”. Assim, a Roma antiga era para Robespierre um passado carregado de “agoras”, que ele fez explodir do continuum da história. A Revolução Francesa se via como uma Roma ressurreta. Ela citava a Roma antiga como a moda cita um vestuário antigo. A moda tem um faro para o atual, onde quer que ele esteja na folhagem do antigamente. Ela é um salto de tigre em direção ao passado. Somente, ele se dá numa arena comandada pela classe dominante. O mesmo salto, sob o livre céu da história, é o salto dialético da Revolução, como o concebeu Marx.
A consciência de fazer explodir o continuum da história é própria às classes revolucionárias no momento da ação. A Grande Revolução introduziu um novo calendário. O dia com o qual começa um novo calendário funciona como um acelerador histórico. No fundo, é o mesmo dia que retorna sempre sob a forma dos dias feriados, que são os dias da reminiscência. Assim, os calendários não marcam o tempo do mesmo modo que os relógios. Eles são monumentos de uma consciência histórica da qual não parece mais haver na Europa, há cem anos, o mínimo vestígio. A Revolução de julho registrou ainda um incidente em que essa consciência se manifestou. Terminado o primeiro dia de combate, verificou-se que em vários bairros de Paris, independentes uns dos outros e na mesma hora, foram disparados tiros contra os relógios localizados nas torres. Uma testemunha ocular, que talvez deva à rima a sua intuição profética, escreveu:
“Qui le croirait! on dit qu’irrités contre l’heure
De nouveaux Josués, au pied de chaque tour,
Tiraient sur les cadrans pour arrêter le jour.”
As ruínas não são, contudo, o que já foi, mas o precisamente agora. A desolação da paisagem, a devastação e o deserto, o árido e o estéril; o inóspito estão aqui como realidade palpável, material, tangível. Que não as vejamos demonstra não a inexistência dos escombros, mas o fato de que nossos olhos foram vazados pela adaga do tempo. Somos incapazes de história, justamente porque organizados segundo a forma discursiva do romance, para o qual tudo o que foi posto na história se redime no desenvolvimento. Aquilo que denominamos realidade, contudo, é um sonho.
Angelus Novus
http://www.leedstrinity.ac.uk/depart/media/staff/ls/WBenjamin/Angelus.html
Paulo Klee
http://oseculoprodigioso.blogspot.com/2005/05/klee-paul-expressionista.html
“Minhas asas estão prontas para o vôo,
Se pudesse, eu retrocederia
Pois eu seria menos feliz
Se permanecesse imerso no tempo vivo."
Gerhard Scholem, Saudação do anjo
Há um quadro de Klee que se chama Angelus Novus. Representa um anjo que parece querer afastar-se de algo que ele encara fixamente. Seus olhos estão escancarados, sua boca dilatada, suas asas abertas. O anjo da história deve ter esse aspecto. Seu rosto está dirigido para o passado. Onde nós vemos uma cadeia de acontecimentos, ele vê uma catástrofe única, que acumula incansavelmente ruína sobre ruína e as dispersa a nossos pés. Ele gostaria de deter-se para acordar os mortos e juntar os fragmentos. Mas uma tempestade sopra do paraíso e prende-se em suas asas com tanta força que ele não pode mais fechá-las. Essa tempestade o impele irresistivelmente para o futuro, ao qual ele vira as costas, enquanto o amontoado de ruínas cresce até o céu. Essa tempestade é o que chamamos progresso.
O revolucionário, tanto quanto o alegorista e o colecionador, ao olhar para o passado o vê não em sua identidade e unidade absolutos, na realização em que se apresenta já morto, mas através de sua tensão constitutiva, ou seja, como realidade viva e contraditória, que respira, mesmo que esteja desfalecida sob os escombros do tempo. Confere, portanto, em sua ação e intelecção, um sopro vital que coloca em pé, novamente, todas as forças que se supunham mortas, fazendo-as trabalhar por novas possibilidades de presença e representação, que venham a redimir não apenas o agora - e, portanto, os homens desta época determinada - mas, igualmente, tudo aquilo que já era dado como perdido e enterrado. O revolucionário, portanto, cruza o tempo, para demonstrar o irreal da naturalidade que a ordem se atribui, mostrando não apenas sua origem na história, mas seu progresso como sendo, igualmente, degradação e decadência.
Sob este aspecto, o revolucionário não age com quem pretende estabelecer uma negociação entre o futuro e o presente, de tal modo que advenha deste tempo ainda imaterial uma promessa de redenção. Mantém, ao contrário, os olhos fixos sobre o passado, porque só pode salvar a si mesmo se libertar todo o cortejo de desgraçados da história. A revolução, portanto, não é apenas uma sociedade nova, mas uma nova qualidade de tempo.
Guernica bombardeada
http://www.eyewitnesstohistory.com/guernica.htm
http://www.timesonline.co.uk/tol/news/world/europe/article709301.ece
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1 A historiografia narra as ruínas de seu tempo, "ruínas representam aqui justamente a síntese paradigmática entre tempo e espaço; a ruína é uma imagem-tempo". A destruição do presente na ruína é representada fortemente pela teoria da alegoria. Para Benjamin, a alegoria está ligada a uma "reabilitação da temporalidade e da historicidade em oposição ao ideal que o símbolo encarna"; nesse sentido, pode-se pensar a alegoria em contraposição à idéia de passado eterno, o que determina uma outra compreensão da história, pois o sentido da totalidade se perde a partir do momento em que um pólo duradouro deixa de existir, anunciando a fragmentação/desintegração daquilo que parecia uno. Na alegoria, está presente a tensão entre duas forças que coexistem: eternidade e transitoriedade, ela "ressalta a impossibilidade de um sentido eterno e a necessidade de perseverar na temporalidade e na historicidade para construir significações transitórias", como se pode observar no seguinte excerto de um poema de Baudelaire:
As formas fluíam como um sonho além da vista,
Les formes s'effaçaient et n'étaient plus qu'un rêve,
Um frouxo esboço em agonia,
Une ébauche lente a venir,
Sobre a tela esquecida, e que conclui o artista
Sur la toile oubliée, et que l'artiste achève
Apenas de memória um dia.
Seulement par le souvenir.
(NASCIMENTO, Roberta Andrade do. Charles Baudelaire e a arte da memória)

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