Sinais
koyaanisqatsi
a cidade arrasta meus olhos
por poças abjetas
em que edifícios envidraçados
vem se mirar
a imagem tece camas improváveis
um homem passa mastigando o cigarro
e eu olho para uma mulher
de pernas abertas:
na vulva crucifixada de revista
nossos olhos se encontram,
como almas abissais que se evadem
para onde nos levam esse precipícios vaginais?
ruas e becos deglutem transeuntes
um mendigo esmola em nome
de um deus morto e
ciganas lêem mãos sem traços maldizendo
as bocas do metrô
que se alimentam do fluxo
Titans domesticados
elevadores sugadores de gente
escarram engravatados e
sapatos de torturar pés
nas vitrines os manequim inertes
atraem as mulheres
com cadáveres de outros tempos
as placas me roubam o sentido
um ciclope de três olhos orienta o trânsito
sigo um sistema de referências
que não leva a lugar algum
perambulo pelas cidades
vago por entre ruínas
desprovidas de história
o deserto
é o fim da linha
em um ônibus que não para de circular
e por todos lados ouço
a multidão caminha
o pêndulo de um relógio
de vidro rachado
não há mais tic-tac, tic-tac...
o silêncio
(ruído como forma anódina e vazia)
virei na cama, como quem se meche
no túmulo
(a manhã rasgou meu ser)
a navalha de um calafrio
não consigo acordar
estou morto?

0 comentários:
Postar um comentário