Cinema da Cidade

(Exercícios Benjaminianos)


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Índice
(Ato III)



Sinais




koyaanisqatsi


a cidade arrasta meus olhos

por poças abjetas

em que edifícios envidraçados

vem se mirar

a imagem tece camas improváveis

um homem passa mastigando o cigarro

e eu olho para uma mulher

de pernas abertas:

na vulva crucifixada de revista

nossos olhos se encontram,

como almas abissais que se evadem

para onde nos levam esse precipícios vaginais?

ruas e becos deglutem transeuntes

um mendigo esmola em nome

de um deus morto e

ciganas lêem mãos sem traços maldizendo

as bocas do metrô

que se alimentam do fluxo

Titans domesticados

elevadores sugadores de gente

escarram engravatados e

sapatos de torturar pés

nas vitrines os manequim inertes

atraem as mulheres

com cadáveres de outros tempos

as placas me roubam o sentido

um ciclope de três olhos orienta o trânsito

sigo um sistema de referências

que não leva a lugar algum

perambulo pelas cidades

vago por entre ruínas

desprovidas de história

o deserto

é o fim da linha

em um ônibus que não para de circular

e por todos lados ouço

a multidão caminha

o pêndulo de um relógio

de vidro rachado

não há mais tic-tac, tic-tac...

o silêncio

(ruído como forma anódina e vazia)

virei na cama, como quem se meche

no túmulo

(a manhã rasgou meu ser)

a navalha de um calafrio

não consigo acordar

estou morto?




Koyaanisqatsi

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