Cinema da Cidade

(Exercícios Benjaminianos)


Ato I Ato II Ato IV

Índice
(Ato III)


Uma fábula

Há muitas gerações aconteceu de o tempo ruir; e ele era tão denso, tão prenhe de si mesmo, que em sua queda erigiu-se em escombro real, palpável, como colunas romanas, perdidas no desolamento da paisagem, para a qual elas não fazem mais nenhum sentido. Esta materialização do tempo, sob a forma e proporção de sólidos irregulares, inaugurou na paisagem um antagonismo que ela desconhecia, de tal modo que sua representação, tanto mais precisa fosse, e na justa medida desta precisão, se afirmava como divergência de sua própria natureza, posto que carregada de um elemento que lhe era estranho. Os homens daquela época, mesmo não tendo compreendido que o tempo que conheciam havia ruído, intuíram o conflito de que a realidade ficara grávida.

* * *

Uma pequena cidade recebeu a visita de um maltrapilho. A população local era muito piedosa e tinha fama de acolher bem os desafortunados. Deste modo, tão logo ele tivesse recostado seu corpo sob a sombra de uma árvore, acorreram a ele muitas pessoas, para oferecer de tudo quanto um infeliz pudesse necessitar. A todos, no entanto, o maltrapilho agradeceu, sem deles tomar o que quer que fosse. E assim passaram-se os dias, sem que ninguém compreendesse a razão de ser daquela visita.

Um dia veio a ter com o maltrapilho certo homem da cidade, cuja fama era a de jamais ter conseguido acrescentar à sua história qualquer obra, no que se distinguia de todos os demais cidadãos, que com o seu correto labor espalhavam pelos quatro cantos do mundo a tradição de excelência, hospitalidade e industriosidade do local. Disse então o homem:

-Não me enganas! Teus trajes não condizem com o teu ser; teu andar, não é o de um alquebrado e teu falar não é o de um errante desafortunado.

-Tu me enganas menos ainda. Eu conheço a ferida de que morres; ela é minha como tua.

-Do que falas, que sandices são estas, partidas de alguém que nunca me viu?

-Acaso tu não és o neto do carpinteiro, que vagava por entre formões, martelos, serras e serrotes, como um beija-for abestalhado? Não eras tu que acordavas pela manhã inebriado com o aroma do cedro e que dormias embalado pela conversa sem sentido e nem propósito, de homens velhos, que enrolavam em seus cigarros de palha o fumo junto com o tempo? Não eras tu que ansiavas da madeira, o milagre da forma?
-E se fosse, de que isso teria me valido? O que foram para mim essas experiências, senão o mergulho em um lago negro, do qual jamais pude voltar à superfície? O que trouxe daquela infância senão a condenação ao desterro, o caminhar como um trôpego e um olhar perdido, que a um tempo anseia e se esconde, de tão transparente se faz? O que faço de virtudes sem serventia e de memórias que não interessam a ninguém?

-Reconstruas o tempo.

-Ou és louco, ou um pervertido. Meu tempo já foi; minha indústria está ultrapassada; meu modo de ser é incompatível com os requerimentos da cidade; estou sempre atrasado, pois o material que deveria ter sob meu domínio me encanta e o resultado que busquei de início toma em minhas mãos formas que eu não pretendia.

-És estúpido por acaso? Não percebes que aquilo que não cabe no presente pode ter o tamanho exato do futuro? Que os ângulos que não se pode ver, são os mais desesperadamente necessários, e tanto mais quanto mais eles se demonstram inatingíveis pela visão? Que tudo que é verdadeiramente útil não se presta ao uso? Não percebes que tua opressão vem do presente, que imaginas invencível, e não do passado que te castiga a memória? Não reconheces nesse passado a linguagem que te permite falar ao indiferenciado e dele extrair as forças que tornam o lançar-se irresistível?

-Vim para te dizer o que já sabias e para te declarar responsável por aqueles mesmos velhos de tua infância. Acha-se entre eles as chaves de tua cadeia; quando abrires a porta sairão todos e então serás mais um a enrolar no cigarro de palha o tempo, a mascar os dias, e estarás inconsciente de teus netos, a teus pés, sonhando contigo. Nesta época, quando não fores mais, serás ainda o espocar do martelo sobre o formão, o perfume do cedro, a imagem impossível no nó da madeira, uma noite que não termina, um momento talhado pelo silêncio. Por meio de teu ato, presente, passado e futuro se rearticularam segundo um ordenamento novo e improvável, de tal forma que tudo que era certo se mostrará duvidoso e todo impossível estará a um passo de ocorrer, pois o tempo se instituirá segundo qualidades novas; terá uma outra densidade relativa, e tudo aquilo que tem existido será matéria nova. Este exato fragmento do tempo contém tudo que procuras e ainda assim estás condenado a perdê-lo, pois poderás banhar-te no insondável, mas não poderás retê-lo. E de tudo que disseres, e de todas as tuas obras que estão por vir, nada terá a dignidade do silêncio que restará por entre as linhas, como o enigma com que busca os outros, daquele mesmo círculo de velhos.

E tendo dito isto, o maltrapilho deixou a cidade.

* * *

1.

Fala o cético

Metade de sua vida se passou,

O ponteiro do relógio avança, sua alma treme!

Há muito ele vagueia,

Procura e não encontra – e hesita agora?

Metade de sua vida se passou:

E não foi mais que erro e dor até o momento!

O que busca você ainda? Por quê?

Justamente a isso eu busco – a razão por quê!

(NIETZSCHE, 2001, p. 47)

2.

Um poeta contemporâneo disse que para cada homem existe uma imagem que faz o mundo inteiro desaparecer; para quantas pessoas essa imagem não surge de uma velha caixa de brinquedos. (BENJAMIN, 1996, p. 253)

3.

História escondida [História Oculta]. – Todo grande homem exerce uma força retroativa: toda a história é posta novamente na balança por causa dele, e milhares de segredos do passado abandonam seus esconderijos – rumo ao sol dele. Não há como antever o que ainda se tornará história. Talvez o passado esteja ainda essencialmente por descobrir! Tantas forças retroativas são ainda necessárias. (NIETZSCHE, 2001, p. 81)

4.

História Vertida

Um vento varreu minha alma:

tão fria a escuridão da perda,

tão firmes suas garras,

que todo o Tempo se contém naquele instante.

Um vento verteu meu coração,

e sonhos, tantos sonhos,

pesadelos, muitos outros,

viajam à deriva no espaço:

pequenos asteróides,

reluzentes,

renitentes,

a perderem-se…

Soft Construction with Boiled Beans
(Premonition of Civil War, 1936)

http://en.wikipedia.org/wiki/Image:SalvadorDali-SoftConstructionWithBeans.jpg

(Salvador Dali)

0 comentários: