O progresso como mito é imediatamente o encantamento mecânico do mundo; a roda a girar infinita e monotonamente; o pêndulo que hipnotiza o tempo, que a sua vez perde volume e profundidade, peso, textura e viscosidade, para converter-se na linha, reta e incisiva, como a escada que conduz ao paraíso. Através deste tempo vazio ceifam-se os ângulos e as arestas obtusas, as pequena irregularidades que nos recordam os vieses, os nós da madeira, aquilo que na natureza resiste à redução e à linearidade.
Por outro lado, nas formas culturais próprias à nossa época – e contra nossa apropriação intelectual mecanicista - subsistem, conjuntamente com os segundos que se perdem, à medida que o mecanismo do relógio anda continuamente para frente, manifestações tristemente efêmeras e partidas, que reluzem e imantam nossos olhos, para perderem-se inapelavelmente no insondável de um tempo que desconhecemos, posto que não linear.
Deste modo, a mercadoria que se insinua na vitrine e que nos quer levar para a cama; os manequins como formas fósseis do feminino; a mulher crucificada no modelo e arrastada nas passarelas, como o Judas que se malha e mortifica; a arma como probabilidade em todo invento; o fármaco para os normais, que se dissimula na meta de supressão de toda patologia; a superação do homem, que se realiza por meio de sua reprodução técnica: a cultura convertida em indústria e o imaginário submetido às regras da produção industrial; a comunicação corrompida segundo a lógica insípida e majestática da informação1 - são fantasmagorias; mineralizações do humano, antecipação da morte, como evasão da morte; realizações de um tempo oco, manifestações diletas do progresso.
Essas são, contudo, conquistas tensas e fraturadas, que arrastam consigo, no mais elevado de sua luminescência, a sombra e os despojos de uma humanidade aterrorizada, os corpos dilacerados por entre as potências ciclópicas da imagem e da representação; o pequeno corpo humano, articulado mecanicamente por engrenagens e demandas que o excedem e que só o preservam, na justa medida em que o dissolvem.
Morangos Silvestres
(Ingmar Bergman, 1957)
(...) O acontecimento não preenche a natureza formal do tempo em que está inserido. Pois não podemos pensar que o tempo é tão somente a medida com a qual se calcula a duração de uma transformação mecânica. Este tempo é uma forma relativamente vazia, e não faz sentido querer pensar as formas do seu preenchimento. Mas o tempo da história é diferente do tempo da mecânica. O tempo da história determina muito mais do que a possibilidade de transformações espaciais de uma certa grandeza e regularidade - concretamente, do andamento dos ponteiros do relógio - durante as transformações espaciais simultâneas de uma estrutura complexa. E, sem determinar ainda que coisa para além disso o tempo histórico afinal determina - sem querer, portanto, definir sua diferença em relação ao tempo mecânico -, podemos desde já afirmar que a força determinante da forma histórica do tempo não pode ser totalmente apreendida por nenhum conhecimento empírico, nem absorvida completamente por ele. Um tal acontecimento, que seria perfeito no sentido da história, é antes um elemento empiricamente indeterminável, ou seja, uma idéia. A esta idéia do tempo preenchido chama-se na Bíblia - e esta é a sua idéia historicamente dominante - o tempo messiânico. Em qualquer caso, a idéia de tempo histórico preenchido não é ao mesmo tempo a idéia de um tempo individual. É esta determinação, que, naturalmente, transforma totalmente o sentido desse preenchimento, que distingue o tempo trágico do messiânico. O tempo trágico está para este último como o tempo individualmente preenchido está para o tempo em que esse preenchimento é da ordem do divino. (BENJAMIN, 2004, p. 265-266)
Tempos Modernos2
(Charles Chaplin, 1936)
Na face plácida e reluzente do progresso, portanto, tanto quanto ocorre com a mercadoria, existem traços que cumpre evidenciar, exatamente porque são qualidades inerentes a ambos. O que se quer encontrar precisa, no entanto, ser atualizado como imagem, que incorpora à coisa, como verdade sua, tudo aquilo que ela, com ardil, postula como traços insignificantes, pequenos indícios, ornamento e adereço, cacoetes. Por meio da imagem, no instantâneo de sua instituição no aparelho receptivo, as pequenas deformações, as sombras, as imprecisões oferecem a coisa não como auto-retrato e auto-referência, mas como aquilo que é para o outro.
To thinking belongs the movement as well as the arrest of thoughts. Where thinking comes to a standstill in a constellation saturated with tensions – there the dialectical image appears. It is the caesura in the movement of thoughts. Its position is naturally an arbitrary one. It is to be found, in a word, where the tension dialectical opposites is greatest. Hence, the object constructed in the materialist presentation of history is itself the dialectical image. The latter is identical with the historic object; it justifies its violent expulsion of the continuum of historical process. (BENJAMIN, 1999, p. 475)
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1 (...) a informação precisa provar sua veracidade e, com isto, impõe ao leitor explicações que a tornem verificável. Mas sua qualidade mais característica está em que seu mérito “reduz-se ao instante em que era nova. Vive apenas nesse instante, precisa entregar-se inteiramente a ele, e, sem perda de tempo, comprometer-se com ele” (1983: 61-62). Não é guardada na memória, mas consumida instantaneamente. Do mesmo modo como surge, esvai-se no esquecimento. (ABREU, Eide Sandra Azevedo. Walter Benjamin o Tempo da Grande Indústria. Ensaio obtido no sítio Antivalor)
2 Tempos Modernos:
Parte 1: http://br.youtube.com/watch?v=qDnDaDYZ2AQ
Parte 2: http://br.youtube.com/watch?v=7fyyt3JGGvk
Parte 3: http://br.youtube.com/watch?v=NKAOQbjeQMM
Parte 4: http://br.youtube.com/watch?v=jzhFCNf93aQ
Parte 5: http://br.youtube.com/watch?v=JpmLRKJkFtY
Parte 6: http://br.youtube.com/watch?v=ux9SRkHuZy4
Parte 7: http://br.youtube.com/watch?v=c6bNZzsbmv4
Parte 8: http://br.youtube.com/watch?v=BkMrUq1J4EI
Parte 9: http://br.youtube.com/watch?v=nYDZyceryYQ

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