Progresso e recorrência: o eterno retorno
“Eternal return” is the fundamental form of the urgeschichtlichen, mythic consciousness. (Mythic because it does not reflect) (BENJAMIN, 1999, p. 119)
O progresso é mítico em um sentido muito particular, ou seja, tem seus olhos sempre voltados para o futuro, não permitindo, portanto, que o passado seja nele refletido, ou que ele próprio se reconheça no passado. Exatamente por isso, adquire uma natureza unilateral e refratária, que não permite admitir como suas, como obras suas, as ruínas que são deixadas pelo caminho e que o progresso recorrentemente imputa não a si mesmo, mas à sua ausência. A ciência, à sua vez, participa desta mesma inapetência para o passado de que é acometido o progresso1.
Tão logo, contudo, o tempo tenha perdido suas qualidades densas, a tessitura com que se ata todos os pontos do existente, e tenha se transformado em uma linearidade, ele decaí no sina do eterno retorno do mesmo. Progresso e recorrência, portanto, se reúnem, mas permanecem de costas, de tal modo que o mesmo se eterniza, por não poder comunicar sua natureza arcaica. É exatamente aí que interferem o revolucionário e o alegorista, pois eles revelam o novo com toda sua potência arcaica, com o que o demonstram também na qualidade de mito e ídolo.
The belief in progress - in an infinite perfectibility understood as an infinite ethical task - and the representation of eternal return are complementary. They are the indissoluble antinomies in the face of which the dialectical conception of historical time must be developed. In this conception, the idea of eternal return appears precisely as that “shallow rationalism” which belief in progress is accused of being, while faith in progress seems no less to belong to the mythic mode of though than does the idea of eternal return. (BENJAMIN, 1999, p. 119)
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1 Ao atribuir às coisas propriedades de seu próprio psiquismo, conforme ele é instituído a cada momento histórico determinado, o homem conhece não a coisa como ela de fato é, mas a si mesmo, de conformidade exata com os pressupostos teóricos e metodológicos que tomou no início do seu salto sobre a realidade. Partindo, portanto, do pressuposto de um tempo vazio e linear, a ciência reencontra e se reconhece, recorrentemente, no conceito de progresso.

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